Mulheres encontram no bodyboarding uma nova relação com o próprio corpo em categoria PCD

Renata Bonzone (FOTO: Divulgação)

Enquanto a segunda etapa do Circuito Mundial Feminino de Bodyboarding começa nesta quinta-feira (27), em Aveiro, Portugal, uma das categorias que estarão em destaque na etapa brasileira do Mundial reúne histórias que vão muito além do esporte. De 10 a 20 de setembro, o 5º ArcelorMittal Wahine Bodyboarding Pro, na Serra (ES), terá novamente uma competição exclusiva para mulheres com deficiência, com baterias de atletas amputadas, mastectomizadas e com deficiência visual.

Para essas mulheres, o bodyboarding representa mais do que uma modalidade esportiva. É uma possibilidade de reconstruir a relação com o próprio corpo, recuperar a confiança e encontrar novas formas de se reconhecer depois de experiências como um câncer de mama, uma amputação ou a perda da visão.

Um novo começo depois da amputação

A pernambucana Carla Cunha, de 45 anos, perdeu a perna esquerda após sofrer um acidente de moto em João Pessoa (PB), em 2016. Na queda, foi arremessada para a pista contrária e atropelada por um carro, que provocou o esmagamento da perna esquerda e lesões graves na direita. Depois do acidente, passou dois anos praticamente restrita a consultas médicas, enfrentando o trauma de voltar a andar de carro, além do medo, da ansiedade e da depressão. A virada começou no fim de 2018, quando voltou a treinar musculação e recuperou pouco a pouco a sensação de autonomia.

Em 2021, incentivada pelo marido, que começou a surfar, Carla voltou a se aproximar do mar, lugar que considera seu “melhor lugar nesse mundo”. Depois de descer uma onda na prancha do marido, comprou sua própria prancha e encontrou no bodyboarding uma nova possibilidade de recomeço. Foi também por meio do esporte que conheceu Neymara Carvalho e chegou ao Wahine.

“Foi como se eu tivesse zerado o game e precisasse recomeçar. E isso dói, dá trabalho, dá medo. O bodyboard faz parte desse processo de reconstrução e hoje é uma das maiores ferramentas de transformação na minha vida. Para mim, o Wahine nunca foi apenas sobre ganhar uma bateria ou levantar um troféu. É sobre tudo o que existe por trás daquele pódio: as pessoas que acreditam em nós, as dificuldades que enfrentamos e a felicidade de ver outras mulheres como eu também realizando seus sonhos.” – diz Carla.

Em novembro, Carla completará dez anos desde o acidente que mudou sua vida. Hoje, esposa, mãe e avó, ela considera o bodyboarding parte fundamental do processo de reconstrução que começou depois da amputação.

Depois do câncer, o retorno ao esporte e a tatuagem como símbolo de recomeço

Para a paraibana Cristiana Dantas, a Tiana, a relação com o Wahine foi tão transformadora que ela decidiu levar o nome da competição para o próprio corpo. Mastectomizada após um câncer de mama diagnosticado em 2017, a atleta encontrou no evento uma nova possibilidade de voltar ao esporte e de ressignificar a relação consigo mesma.

Surfista desde os 14 anos e atleta de outras modalidades, Tiana passou por 16 sessões de quimioterapia e uma mastectomia total da mama direita. Antes de chegar ao Wahine, já havia representado o Brasil em uma competição de surf adaptado na Califórnia, experiência que ampliou sua percepção sobre as possibilidades de atletas com deficiência.

Quando surgiu a categoria PCD do Wahine, ela voltou ao bodyboarding e passou a fazer parte do evento. Desde então, a competição se tornou, para ela, um espaço de encontro, fortalecimento e troca entre mulheres.

“O Wahine é um marco, transcende os limites de campeonato, é um grande encontro de fortalecimento, de trocas, de apoio e aprendizado entre mulheres. O Wahine me conquistou, me deu vida e vontade de estar com essa mulherada irada todo ano. Sou só gratidão e por isso marquei no braço o símbolo do Wahine, em reconhecimento para com o IBC, ArcelorMittal e, claro, nossa embaixadora Ney. O bodyboarding tem crescido muito e uma das grandes responsáveis no Brasil é Neymara Carvalho. O mar salva, salga, cura, reúne e nos une.” – conta Tiana.

Cintya Belly, de 44 anos, também encontrou no Wahine uma nova forma de se relacionar com o corpo e com o esporte. Pernambucana de Recife, ela surfa desde os 13 anos, é local de Porto de Galinhas (PE) e acumulou títulos estaduais antes de pausar o esporte. Aos 35, foi diagnosticada com câncer de mama e passou por cirurgia, quimioterapia e radioterapia.

Mesmo durante o tratamento, Cintya manteve o desejo de voltar ao mar. Com autorização médica, assinou um termo para poder retomar as competições e não parou mais. O reencontro com o esporte ganhou um novo significado quando ela foi convidada por Neymara Carvalho para participar da estreia da categoria de mulheres mastectomizadas no Wahine.

“Foi o meu renascimento de verdade. Mesmo diante da dor e do sofrimento, eu sempre mantive o pensamento positivo e quis retornar ao mar. Hoje também dou palestras sobre o Outubro Rosa. O surfe, para mim, é meu habitat, minha conexão. A tatuagem significa tudo isso. Quis fazer essa homenagem à Neymara, porque ela merece muito. É minha ídola.”, conta Cintya.

Do atletismo paralímpico ao bodyboarding

A categoria também reúne atletas que chegam ao mar vindas de outras modalidades. É o caso de Renata Bazone, carioca que mora no Espírito Santo desde bebê e hoje vive na Serra (ES). Atleta com deficiência visual, Renata foi campeã mundial de atletismo paralímpico nos 800 metros T11, para atletas cegos, e medalhista de bronze nos 1.500 metros T11, no Catar em 2015. Ela também compete no Wahine e chega à edição de 2026 para defender os títulos conquistados nas duas últimas edições da competição.

Renata tem retinose pigmentar, uma doença degenerativa progressiva que compromete a visão. A condição também está presente em cinco tios da família e, por volta dos 35 anos, ela recebeu o diagnóstico. O filho mais novo, Tairo, de 26 anos, também convive com a doença. Fisioterapeuta e corredor, ele segue os passos da mãe no esporte e acabou transformando Renata em uma referência para a própria trajetória.

A recomendação médica para Renata foi buscar uma atividade esportiva que também ajudasse no processo de adaptação às mudanças provocadas pela perda da visão. Começou pelo karatê, passou pelo judô e encontrou no atletismo uma nova trajetória. A relação com o filho, porém, mostrou a ela que o impacto do esporte ia além de suas próprias conquistas.

“Anos atrás, em uma entrevista, Tairo respondeu que, se eu fazia tudo, ele estava tranquilo porque também ia fazer. Vi que estava sendo espelho para o meu filho no esporte, mostrando uma nova direção, mesmo com uma deficiência que leva à cegueira total. É isso que o esporte traz: a gente se descobre quando se dá oportunidade.”, diz Renata.

Em 2020, a morte do marido e da mãe mudou sua rotina e fez com que ela interrompesse as competições. O filho mais velho também havia se casado, e Renata perdeu parte da rede de apoio que tinha para conciliar os treinamentos. Foi nesse período que conheceu Hudson Oliveira, treinador que lhe apresentou o projeto de inclusão de pessoas com deficiência no ArcelorMittal Wahine Bodyboarding Pro.

“Eu não sabia nadar nem surfar, mas abracei a oportunidade. O Wahine hoje é isso para mim: um projeto de inclusão que me mostrou uma nova direção, assim como o esporte já tinha feito antes. Quando encontramos pessoas que acreditam na gente, a gente abraça. E é isso que o esporte traz: a gente se descobre quando se dá oportunidade.”

A presença de mulheres com diferentes deficiências é parte da proposta do Wahine de ampliar o espaço feminino dentro do bodyboarding. A competição PCD é realizada dentro da etapa brasileira, embora não conte pontos para o Mundial, ao lado de outras categorias que ampliam a participação de mulheres de diferentes idades e trajetórias.

Um campeonato que reúne diferentes gerações

Além da categoria profissional, que integra o Circuito Mundial, o Wahine reúne a Pro Junior, criada para incentivar a formação de novas atletas; a Master 40+, com nomes experientes da modalidade; e a categoria Mães e Filhos, que promove o encontro entre diferentes gerações. A Pro Junior feminina foi impulsionada por Neymara Carvalho a partir da percepção de que as meninas não tinham uma categoria de base equivalente à existente no masculino. A iniciativa ajudou a revelar atletas como sua própria filha, Luna Hardman, de 20 anos, que hoje compete no Circuito Mundial ao lado da mãe.

O evento também promove ações sociais, como o Ônibus Rosa, iniciativa realizada em parceria com o Juizado Especial da Mulher para conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher. Criado em 2021 por Neymara Carvalho, o Wahine tornou-se etapa oficial do Circuito Mundial no ano seguinte e chega à quinta edição em 2026. Entre 10 e 20 de setembro, a Praia do Solemar, em Jacaraípe, na Serra (ES), receberá o ArcelorMittal Wahine Bodyboarding Pro, etapa que definirá as campeãs mundiais da temporada.

O ArcelorMittal Wahine Bodyboarding Pro 2026 é realizado pelo Comitê Internacional de Bodyboarding (IBC) e pelo Instituto Neymara Carvalho (INC), com patrocínio master do Governo do Estado do Espírito Santo, patrocínio oficial da ArcelorMittal e apresentação do Extrabom. O evento tem apoio da Prefeitura Municipal da Serra e parceria de Mitsubishi e Wellness, com homologação da Confederação Brasileira de Bodyboarding (CBRASB).

 

SERVIÇO

ArcelorMittal Wahine Bodyboarding Pro 2026
Praia do Solemar – Jacaraípe – Serra (ES)
10 a 20 de setembro de 2026

Circuito Mundial Feminino de Bodyboarding 2026
Maldives Pro – 12 a 21 de agosto | Thulusdhoo (Maldivas)
Miss Quebramar Cup – 27 e 28 de agosto | Aveiro (Portugal)
Sintra Bodyboard Festival – 1º a 6 de setembro | Sintra (Portugal)
ArcelorMittal Wahine Bodyboarding Pro – 10 a 20 de setembro | Serra (ES)

 

 

 

 

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