Todos os dias, toneladas de alimentos são desperdiçadas antes mesmo de chegar ao prato do consumidor. Dados da WRI Brasil indicam que o país desperdiça cerca de 41 mil toneladas de alimentos por ano, das quais aproximadamente 15% ocorrem em restaurantes. Parte dessas perdas, inclusive, está relacionada não apenas às sobras na cozinha, mas também à dificuldade de controlar custos, acompanhar preços e planejar compras de forma eficiente.
Foi a partir desse problema que nasceu a Pricefood Company, plataforma desenvolvida pela empresa de tecnologia Otimize e que tem entre seus sócios o ex-volante Fabrício Baiano. A solução busca automatizar o processo de compras de restaurantes, reunindo cotações em um único ambiente, aumentando o controle sobre os gastos e ajudando estabelecimentos a comprarem apenas o necessário.
A startup estima reduzir de sete para duas horas o tempo gasto pelos restaurantes no processo de cotação de produtos e tem como meta conquistar 120 clientes no primeiro ano de operação. Atualmente, a plataforma está em fase de validação com estabelecimentos parceiros e deve ser lançada oficialmente em 2026.
Para Fabrício, a criação da empresa representa uma conexão entre sua trajetória pessoal e o desejo de gerar impacto.
“Jamais imaginei que um dia estaria à frente de uma empresa de tecnologia. Mas hoje faz todo sentido quando olho para a minha história. A Pricefood nasceu justamente desse propósito. Depois de tudo o que vivi, seria egoísmo pensar apenas em mim. Eu queria construir algo que ajudasse outras pessoas”, afirma.
Da fome no interior da Bahia ao sonho de ser jogador
Antes de conquistar espaço no futebol profissional, Fabrício viveu uma realidade de extrema dificuldade no interior da Bahia. Ao lado da família, chegou a viver como sem-terra e enfrentou períodos em que a falta de comida fazia parte da rotina enquanto morava em Camacan.
“Assim como todo garoto, eu sonhava em ser jogador de futebol. Mas, para mim, o futebol era muito mais do que um sonho. Era a oportunidade de mudar a minha vida e a história da minha família. A gente passava muita necessidade no interior da Bahia. E quando eu falo em necessidade, eu falo de fome”, relembra.
A mudança para a cidade aproximou Fabrício do futebol. Ainda jovem, decidiu apostar no esporte como caminho para transformar a realidade da família.
“Eu não aguentava mais ver minha mãe e meus irmãos passando dificuldade sem poder fazer nada. Foi aí que decidi que seria jogador de futebol”, conta.
A oportunidade no Vasco e o peso de uma escolha
A busca por uma oportunidade no esporte levou Fabrício ao Rio de Janeiro. Sem dinheiro para pagar a viagem, arrecadou ajuda em feiras e comércios da cidade e conseguiu chegar ao Vasco para realizar um teste.
“Consegui R$ 70, mas ainda não era suficiente. Foi quando consegui uma carona em um caminhão que levava mercadorias para o Rio de Janeiro. Minha mãe nem sabia que eu iria de caminhão. Saímos na sexta-feira e chegamos apenas no domingo”, relata.
Na adolescência, devido às dificuldades de alimentação e desenvolvimento físico comuns entre jovens da sua região, Fabrício chegou a utilizar documentos de outra pessoa para tentar uma oportunidade no futebol. Depois de um período carregando esse conflito, decidiu revelar a situação.
“Chegou um momento em que eu não aguentava mais carregar aquele peso. Eu sentia que estava tirando o sonho de outra pessoa. Podiam me oferecer um caminhão de dinheiro que eu não queria mais viver daquela maneira”, afirma.
Após contar a verdade, recebeu uma nova oportunidade no Vasco e conseguiu regularizar sua trajetória.
“O Vasco, com o Roberto Dinamite, me deu uma nova oportunidade para seguir no clube jogando na minha categoria. Eu sempre fui muito dedicado e continuei trabalhando”, lembra.
O momento mais difícil da vida
A carreira profissional trouxe experiências internacionais e passagens por clubes como Coritiba, Marítimo (Portugal), Rizespor (Turquia), Fortaleza, Petrolul (Romênia) e Sagamihara (Japão). Mas, antes da consolidação no futebol, Fabrício passou por um dos períodos mais delicados da vida.
Após uma lesão no ligamento cruzado do joelho e a perda do pai durante a recuperação, deixou o Vasco e enfrentou uma fase de extrema dificuldade financeira no Rio de Janeiro.
“Foi nesse período que vivi o momento mais difícil da minha vida. Eu passava o fim de semana inteiro sem comer. Durante a semana, uma senhora fazia minhas refeições, mas, quando chegava sábado e domingo, eu não tinha dinheiro”, conta.
A situação chegou ao limite quando precisou recorrer ao próprio lixo para conseguir se alimentar.
“Um dia, não tinha absolutamente nada para comer e precisei voltar ao lixo para pegar aquelas sobras. Eu tive que comer o meu próprio lixo”, revela.
Ele também lembra que esperava o fim dos jogos em São Januário para conseguir alimentos deixados pelos torcedores.
“Eu não tenho vergonha de falar isso. Faz parte da minha história e é uma lembrança que jamais vou esquecer”, afirma.
Do futebol aos negócios
Depois de construir uma carreira no futebol, Fabrício começou a planejar a transição para o empreendedorismo ainda durante os anos como atleta. A inspiração veio de outros jogadores que construíram negócios fora dos campos.
“Minha carreira toda sempre me inspirei no Flamini, que era do Milan. Ele também era volante e iniciou uma empresa para criar plásticos biodegradáveis. Antes de me aposentar, eu sempre soube que queria trabalhar com tecnologia que fizesse a diferença”, explica.
A Pricefood nasceu da união entre Fabrício e os sócios Thiago Coelho, Jeferson Sodré e Alef Lotaif. O projeto começou após uma conversa com um empresário do setor de alimentação, que relatou dificuldades para administrar compras e custos em uma rede de restaurantes.
A partir daquele encontro, o grupo passou cerca de sete meses desenvolvendo a plataforma. A ferramenta permite centralizar cotações, comparar preços entre fornecedores cadastrados e oferecer mais previsibilidade para a gestão dos estabelecimentos.
“Com a nossa plataforma, queremos que o empresário só precise pesquisar o produto para visualizar rapidamente as melhores opções entre os fornecedores cadastrados, reduzindo um processo tedioso e que só atrasa uma rotina que já é estressante”, explica.
Para Fabrício, a startup representa uma nova fase profissional, mas mantém o mesmo propósito que guiou sua trajetória desde a infância. “A gente sabe que não vai acabar com a fome no mundo. Mas, se conseguirmos reduzir o desperdício de alimentos e ajudar uma ou duas pessoas a terem uma refeição digna, já vai valer a pena. Eu sei o que é sentir a barriga doer de fome. Sei o que é comer do lixo. É por isso que tenho esse sangue nos olhos para ajudar pessoas e evitar que tanta comida seja desperdiçada”, finaliza.