O Brasil é conhecido mundialmente por seus talentos esportivos. A cada quatro anos, o planeta para para assistir à Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo. Pelé e Ronaldo já pararam guerras e são lembrados até hoje nos quatro cantos do Planeta. Por pouco, Zico não virou imperador no Japão, assim como Falcão virou o ‘Rei de Roma’.
Nomes como Ayrton Senna, Gustavo Kuerten, Hortência, Oscar Schmidt, Rebeca Andrade e tantos outros ajudaram a construir a imagem de um país naturalmente vocacionado para o esporte. Mas existe uma contradição difícil de ignorar.
Apesar da paixão nacional pelo futebol e da admiração pelos ídolos esportivos, o esporte ainda ocupa um papel secundário nas políticas públicas brasileiras. Em muitas escolas, as aulas de educação física são limitadas. Faltam quadras, equipamentos, professores e programas permanentes de incentivo à prática esportiva.
O resultado é um país que celebra campeões, mas que ainda oferece poucas oportunidades para que milhões de crianças e adolescentes tenham acesso regular ao esporte.
A diferença em relação aos Estados Unidos, por exemplo, uma das maiores potências mundiais também no esporte, ajuda a entender o problema.
Enquanto no Brasil o esporte costuma ser visto como lazer ou caminho para o alto rendimento, os americanos o tratam como parte integrante da formação educacional. Desde cedo, crianças e adolescentes participam de equipes escolares, campeonatos regionais e competições universitárias.
Neste caso, o esporte deixa de ser apenas uma atividade complementar para se transformar numa ferramenta de formação social.
Nas escolas de ensino médio dos Estados Unidos, milhões de estudantes participam de programas esportivos organizados. Nas universidades, centenas de milhares de jovens conciliam estudos e competições.
O objetivo não é apenas formar atletas profissionais. Pelo contrário. Apenas uma pequena parcela chegará ao esporte de alto rendimento. A grande maioria utilizará as experiências esportivas como ferramenta para desenvolver disciplina, liderança, resiliência e capacidade de trabalhar em equipe.
O Brasil segue um caminho diferente.
Historicamente, o país concentrou seus esforços na descoberta de talentos capazes de representar clubes, estados ou a seleção nacional. A base esportiva foi construída muito mais por projetos isolados, iniciativas privadas e ações de organizações sociais do que por uma política pública estruturada e permanente.
Isso ajuda a explicar por que tantas crianças brasileiras sonham em ser atletas profissionais, mas poucas têm acesso a programas esportivos regulares dentro do ambiente escolar.
Os números ajudam a compreender o tamanho do desafio.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a maioria dos brasileiros não pratica esportes regularmente. O acesso à atividade física também varia de acordo com renda e escolaridade. Quanto maior o nível de instrução e a condição econômica, maiores são as chances de uma pessoa praticar esportes.
Na prática, isso significa que justamente aqueles que mais poderiam se beneficiar da atividade esportiva muitas vezes são os que menos têm acesso a ela.
E os benefícios vão muito além da saúde física.
Diversos estudos nacionais e internacionais apontam que a prática esportiva está associada à redução da evasão escolar, ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais, à melhoria da convivência social e ao aumento do desempenho acadêmico. Crianças e adolescentes que participam de atividades esportivas tendem a desenvolver maior senso de responsabilidade, disciplina e respeito às regras.
Não por acaso, projetos esportivos em comunidades vulneráveis costumam ser vistos como instrumentos importantes de prevenção à violência e de inclusão social.
É evidente que o esporte, sozinho, não resolve problemas estruturais como pobreza, desigualdade ou criminalidade. No entanto, ele pode funcionar como uma poderosa ferramenta complementar dentro de um conjunto maior de políticas públicas voltadas para educação, saúde e cidadania.
Outro aspecto frequentemente ignorado é o impacto econômico. O setor de esportes movimenta cerca de R$ 180 bilhões por ano no Brasil, o que equivale a 1,7% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
Além de gerar empregos e renda, o investimento em esporte contribui para reduzir gastos futuros com doenças associadas ao sedentarismo, como hipertensão, diabetes e obesidade.
Sob essa perspectiva, investir em esporte deixa de ser uma despesa para se tornar uma estratégia inteligente de desenvolvimento social e econômico.
A pergunta que surge é inevitável: se os benefícios são tão evidentes, por que o esporte continua recebendo atenção limitada por parte dos governos?
Uma das explicações está no fato de que seus resultados aparecem no médio e longo prazo. Construir uma cultura esportiva exige continuidade, planejamento e investimento constante. Não produz resultados imediatos nem rende dividendos políticos rápidos. Além disso, o esporte frequentemente perde espaço para demandas urgentes em áreas como saúde, segurança e infraestrutura.
O problema é que essa lógica ignora uma verdade fundamental: o esporte ajuda justamente a melhorar muitos dos indicadores dessas áreas.
Uma população mais ativa tende a ser mais saudável. Jovens envolvidos em atividades esportivas tendem a permanecer mais tempo na escola. Comunidades que oferecem oportunidades de prática esportiva ampliam suas redes de convivência e inclusão.
O Brasil já compreendeu a capacidade do esporte de produzir campeões e cidadãos de bem. O que ainda falta é reconhecer sua capacidade de formar estes cidadãos.
Talvez o maior desafio não seja conquistar mais medalhas olímpicas, revelar novos craques ou subir posições em rankings internacionais. O verdadeiro desafio seja entender que cada quadra, piscina ou pista construída, cada professor valorizado e cada criança inserida em uma atividade esportiva representam um investimento no futuro do país.
Os Estados Unidos fizeram essa escolha há muitas décadas. O Brasil ainda parece hesitar. E essa demora pode estar custando muito mais do que imaginamos.