Diante do avanço alarmante dos índices de feminicídio no Brasil, a Federação de Judô do Estado do Rio Grande do Norte (FJERN) transformou os tatames em palanque de resistência. Embalada pelo mês da mulher, a entidade lançou a campanha ‘Você não está sozinha’, iniciativa que rapidamente mobilizou atletas, treinadores, árbitros e colaboradores em torno de uma causa que vai muito além do esporte.
A ação chega em um momento crítico: segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número desde que o crime foi tipificado, em 2015. O aumento é de 4,7% em relação aos 1.492 casos de 2024. Em cinco anos, a alta acumulada chega a 14,5%. Cerca de 64% das mortes aconteceram dentro da própria casa das vítimas, 80% foram cometidas por parceiros ou ex-parceiros, e seis em cada dez mulheres assassinadas eram negras.
A árbitra Karol Cavalcante resume o espírito da campanha com precisão: “Ser mulher é um exercício diário de coragem e autenticidade. Precisamos honrar as mulheres que, com resiliência, abriram caminhos onde antes só existiam barreiras. Hoje, nossa missão é transformar cada conquista em um alicerce sólido. O futuro que queremos, mais justo e com oportunidades iguais, começa agora, em cada incentivo às nossas atletas, em cada cargo de liderança ocupado e no respeito que cultivamos dentro e fora dos tatames.”
A filosofia do judô, que ensina a transformar a queda em aprendizado, atravessa cada declaração da campanha. “No judô aprendemos que cair faz parte, mas se levantar é que nos deixa forte. Celebramos nossa resiliência, seja no tatame ou nos desafios da vida”, diz a sensei Joelma Cardoso, reforçando essa conexão.
A sensei Ana Leão vai além e convoca mulheres de todas as idades: “Para a mulher, não existe limite, nem barreira que a vontade de vencer não possa derrubar. O judô nos ensina o uso máximo da energia para o bem, direcionar nossa força, nossa resiliência e nossa inteligência para transformar as lutas diárias nas conquistas que desejamos. Seja na infância, na juventude ou na maturidade, a essência é a mesma: cair e levantar com mais sabedoria.”
Para o presidente da FJERN, Herbet Maia, o Shaolin, a campanha nasce de uma responsabilidade coletiva. “Essa foi a forma que a Federação encontrou de tentar alertar a sociedade contra essa violência sem sentido contra as mulheres. E o movimento foi muito bem recebido por nossos atletas, treinadores, árbitros e colaboradores. Contamos com muitas judocas fortes, corajosas e que venceram através do esporte.”
Macanismos legais de proteção
Em Brasília, o Congresso Nacional aprovou, nesta terça-feira (10 de março), seis propostas voltadas à proteção das mulheres, três pela Câmara dos Deputados e três pelo Senado. Uma das medidas, já encaminhada à sanção presidencial, estabelece que a vítima somente poderá desistir do processo contra o agressor mediante manifestação expressa em audiência de retratação, reforçando mecanismos legais de proteção e combate à violência de gênero.
A Confederação Brasileira de Judô (CBJ) também tem fortalecido seu compromisso com a defesa e valorização das mulheres por meio da implementação de políticas internas focadas em igualdade de gênero, prevenção ao assédio e empoderamento feminino no esporte.
ALERTA: Se você sofre violência ou conhece alguém em situação de risco, ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher, disponível 24 horas.