A cardiomiopatia hipertrófica (CMH) é uma doença genética do coração que faz a parede do ventrículo esquerdo engrossar sem uma causa externa que explique isso, como pressão alta descontrolada. Estudos populacionais com ecocardiograma estimam prevalência de 1 em cada 500 adultos jovens; análises genéticas mais recentes apontam algo próximo de 1 em cada 200. Aplicada à população brasileira, a conta vai de 400 mil a 1 milhão de pessoas.
A maioria não sabe, mas o subdiagnóstico é a regra na doença, e o diagnóstico costuma chegar tarde, muitas vezes só depois de um evento grave. É uma das principais causas de morte súbita cardíaca entre jovens e atletas, histórico que levou décadas de cardiologia a recomendar o oposto do que hoje se considera seguro: evitar o exercício físico.
Uma revisão sistemática assinada por especialistas da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), publicada nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, muda essa orientação. Com avaliação individualizada, quem tem o diagnóstico pode, sim, se exercitar, inclusive em intensidade moderada a vigorosa. A revisão analisou oito estudos, quatro ensaios clínicos randomizados e quatro observacionais, somando 9.744 participantes, e não identificou aumento de mortalidade nem de eventos arrítmicos graves associados à prática de exercício físico. Síncope foi um evento raro.
Um estudo observacional coreano, com 7.666 pessoas e idade média de 59 anos, mostrou o oposto do que se temia: quanto maior o nível de atividade física relatado, menor a mortalidade por todas as causas e a mortalidade cardiovascular, numa relação de dose e resposta. Em dois estudos com 128 atletas que seguiram competindo por até sete anos após o diagnóstico, não houve eventos clínicos relacionados à prática esportiva nem mortes.
“Hoje temos ferramentas de imagem e de estratificação de risco que permitem discutir, caso a caso, quem pode se exercitar e com que intensidade, e isso muda a vida de quem convive com a doença”, diz Carlos Eduardo Suaide Silva, cardiologista do Delboni e do Lavoisier, marcas da Dasa em São Paulo, líder em medicina diagnóstica no Brasil.
A SBC organizou a recomendação em três níveis. Para a população geral com CMH, sem marcadores de risco elevado, o exercício regular é recomendação forte, baseada em evidência moderada. Para quem tem marcadores de alto risco, a orientação prevê acompanhamento supervisionado, de preferência em ambiente de reabilitação cardiovascular ou em instalações equipadas com desfibrilador externo automático, e vem classificada como recomendação fraca, com certeza de evidência muito baixa.
Entram nessa lista sintomas durante o esforço, arritmias ventriculares, história familiar de morte súbita antes dos 50 anos, espessura septal igual ou superior a 30 mm, realce tardio acima de 15% da massa do ventrículo esquerdo e obstrução da via de saída a partir de 30 mmHg. Já a liberação para esporte de alta intensidade ou competitivo depende da ausência desses marcadores e de avaliação prévia por equipe multidisciplinar, também como recomendação fraca. Em nenhum dos três níveis a decisão é automática: o documento é enfático ao dizer que ela precisa ser compartilhada entre médico e paciente, com reavaliação periódica.
Os próprios autores da revisão reconhecem limitações importantes. Estudos em populações com baixa prevalência da doença são difíceis de conduzir com rigor metodológico e acompanhamento longo, e os oito trabalhos analisados têm protocolos de exercício e perfis de pacientes heterogêneos, o que exige cautela na leitura dos resultados. Adultos jovens, de 20 a 40 anos, tradicionalmente o grupo de maior risco para morte súbita, foram avaliados apenas em pequenos estudos observacionais.
“O estudo traz segurança dentro de critérios bem definidos, mas a decisão de liberar o exercício continua sendo clínica, tomada caso a caso pelo médico que acompanha o paciente. Nenhuma diretriz substitui esse julgamento. Ecocardiograma, ressonância cardíaca e, em casos selecionados, teste genético são o caminho para saber em que grupo de risco a pessoa está antes de qualquer prescrição de atividade física”, afirma o cardiologista.
Como boa parte dos brasileiros com cardiomiopatia hipertrófica ainda não sabe que tem a doença, o diagnóstico por imagem segue como etapa central antes de qualquer liberação para exercício ou esporte, e é também o ponto em que a nova recomendação da SBC deve ter mais impacto prático no dia a dia dos consultórios.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Stein R, Alô ROB, Ritt LEF, et al. Revisão Sistemática sobre a Segurança do Exercício Físico na Cardiomiopatia Hipertrófica: Recomendações da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Arq Bras Cardiol. 2026;123(8):e20260423. Disponível em: Link
Maron MS, Hellawell JL, Lucove JC, et al. Occurrence of Clinically Diagnosed Hypertrophic Cardiomyopathy in the United States. Am J Cardiol. 2016;117(10):1651-1654.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo Demográfico 2022: população residente no Brasil.