De competição esportiva a maior vitrine global de influência política, turismo e projeção internacional. A cada edição, a Copa do Mundo mobiliza bilhões de espectadores, movimenta economias inteiras e transforma países-sede em centros temporários das atenções mundiais. Para a professora de Relações Internacionais do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Gleisse Alves, mais do que futebol, o torneio é ferramenta estratégica de construção de imagem global, fortalecimento diplomático e atração de investimentos.
Segundo a especialista, o evento se tornou um poderoso instrumento de soft power, com países influenciando outros por meio da cultura, imagem e diplomacia, não apenas pelo poder econômico ou militar. “A Copa do Mundo permite que o país-sede projete imagem positiva para o exterior. É uma oportunidade de mostrar a capacidade de organização, atrativos turísticos, estabilidade e potencial econômico para investidores e visitantes estrangeiros”, explica Gleisse.
Em 2018, a Rússia usou a Copa como estratégia para reconstruir imagem internacional após crises diplomáticas e denúncias de violações de direitos humanos, buscando projetar imagem de modernidade e estabilidade. Já em 2022, o Catar fez investimentos bilionários em mobilidade, turismo e tecnologia na tentativa de ampliar sua influência global e consolidar o futebol como ferramenta de projeção internacional.
A docente do CEUB destaca ainda os efeitos duradouros na percepção internacional dos destinos. Após sediar uma Copa, muitos países registram aumento do fluxo turístico e maior visibilidade global: “A exposição internacional funciona como uma campanha de marketing em escala planetária. A imagem transmitida durante o torneio pode impactar diretamente o turismo e a economia por muitos anos”.
Futebol, diplomacia e poder político
O uso político do futebol não é recente. Na Copa de 1934, realizada na Itália, Benito Mussolini utilizou o torneio como propaganda do regime facista. Nas últimas décadas, esse fenômeno ganhou novos contornos com o sportwashing, quando países utilizam mundiais esportivos para melhorar reputações internacionais desgastadas por crises políticas, violações de direitos humanos ou conflitos diplomáticos. “Grandes eventos esportivos ajudam governos a controlar narrativas externas, aumentar a visibilidade internacional e fortalecer relações diplomáticas. A Copa do Mundo funciona como um espaço simbólico de disputa por influência global”, avalia a especialista do CEUB.
FIFA, interesses econômicos e soberania
A realização também envolve disputas econômicas e institucionais entre governos, patrocinadores e entidades privadas internacionais, especialmente a FIFA. Um episódio emblemático ocorreu na Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Embora a legislação brasileira proibisse a venda de bebidas alcoólicas nos estádios por razões de segurança pública, a FIFA exigiu a liberação da comercialização devido a contratos milionários com patrocinadores internacionais do setor de bebidas. “O episódio evidenciou como megaeventos esportivos frequentemente colocam em debate questões de soberania nacional, interesses econômicos e exigências comerciais globais”, finaliza Gleisse Alves.