Por George Fernandes
Dizem que clássico no Brasil é guerra. No sentido figurado, a metáfora é perfeita: a rivalidade centenária, o nervosismo que antecede o apito inicial e a entrega absoluta em campo. O problema é que, nas últimas décadas, o futebol brasileiro resolveu levar a metáfora ao pé da letra.
Neste sábado, dia 24 de janeiro, a Arena das Dunas recebe o Clássico-Rei América x ABC. Mas, antes mesmo de a bola rolar, o que vimos durante a semana foi um “treinamento de guerra” da Polícia Militar do Rio Grande do Norte. De um lado, forças de segurança mobilizadas em escala de combate; do outro, uma cidade que prende a respiração.
Por que chegamos a esse ponto?
É inadmissível que um espetáculo de entretenimento exija que mais da metade da segurança pública de um estado seja deslocada para as adjacências de um estádio. Enquanto o “pau come” nos bairros periféricos logo cedo, a polícia tenta enxugar gelo nas ruas. É o confronto pelo confronto. É a barbárie travestida de paixão clubística.
O diagnóstico é claro, mas a cura parece distante porque falta coragem para a “cirurgia” necessária. O Estatuto do Torcedor virou letra morta. O Ministério Público, muitas vezes, parece assistir de longe. E os clubes? Bem, os clubes parecem alimentar um monstro que, no fim do dia, devora as suas próprias receitas.
Ao não banir estas organizações de “torcedores”, que mais parecem facções criminosas disfarçadas de torcidas, os clubes expulsam o verdadeiro torcedor – aquele que leva a família, que consome no estádio e que quer apenas torcer.
O efeito colateral da truculência
Nesse cenário de “gosto de gás”, o perigo é duplo. De um lado, torcedores que se degladiam como se estivessem na Roma Antiga. De outro, uma resposta policial que, por vezes, não distingue o vândalo do cidadão.
Quantos “torcedores desavisados” já não levaram borrachada ou foram atingidos por estilhaços apenas por estarem no lugar errado, na hora do jogo?
O resultado final é melancólico: o conforto do lar ou o bar da esquina viraram os refúgios do torcedor consciente. O custo e o risco de ir ao estádio se tornaram altos demais.
Enquanto isso, a engrenagem econômica gira. Meios de comunicação faturam com a audiência do caos e patrocinadores surfam na visibilidade das transmissões. Mas fica a pergunta: até quando o futebol vai sobreviver sendo um evento onde a vitória é sair vivo do estádio?
O futebol respira por aparelhos nas arquibancadas. Se não houver uma medida drástica contra as “facções” e uma mudança real na gestão dessa violência, o clássico deixará de ser uma festa para se tornar, definitivamente, um campo de batalha onde todos, sem exceção, saem derrotados.